O que são as Virtudes – e por que elas importam na sua vida?
Entenda o que são as virtudes sob a ótica da filosofia clássica e da fé cristã — e descubra como elas podem transformar sua vida prática e espiritual. Um convite à busca pela verdadeira excelência.
Finalmente chegamos ao tema que, pra mim, é o coração de tudo o que falamos até aqui: as Virtudes.
Se você vem acompanhando essa série desde o início, sabe que esse caminho começou bem lá atrás — com reflexões sobre o que é ética, moral, princípios e valores. Pode parecer meio teórico à primeira vista (e talvez até tenha sido mesmo), mas tudo isso foi importante pra que agora a gente possa olhar para as Virtudes com mais clareza, profundidade e propósito.
Porque a verdade é que as virtudes não são um assunto distante, filosófico ou "bonitinho de ouvir no domingo". Elas dizem respeito ao tipo de pessoa que estamos nos tornando. E, no fundo, todo mundo sente esse desejo por ser alguém melhor — mais íntegro, mais justo, mais paciente, mais parecido com Cristo.
Se você ficou comigo até aqui, meu coração se alegra — porque agora vem a parte mais linda! Te convido a mergulhar comigo nesse tema com calma, parte por parte, tentando extrair dele não só conhecimento, mas inspiração e direção pra vida real.
E se você chegou aqui agora e ainda não leu os textos anteriores, não tem problema — eu vou te situar ao longo do caminho. O importante é que você esteja aqui, aberta pra caminhar um pouco mais fundo.
Quando decidi iniciar esta série sobre Virtudes, achei por bem começarmos o caminho esclarecendo alguns conceitos mais filosóficos que rodeiam o tema. Nisto, vimos uma breve introdução a Virtude e, em seguida, aprendemos a diferenciar a Ética e a Moral. Aprendemos que a Moral é a “transcrição de uma verdade ética universal para uma conduta pratica” e que ela se subdivide em 3 partes: a moral como ajustes nos relacionamentos, a moral para a ordem interna e o propósito maior a qual ela nos alinha.
Na sequência, analisamos brevemente os conceitos de Princípios e Valores. Vimos que os Princípios são fundamentos elementares que regem nossas decisões e ações e que os valores são qualidades que desejamos alcançar. Cada um deles cumpre um papel diferente, como vemos abaixo:
- Ética: Criar uma reflexão racional e filosófica sobre o que é o bem e como devemos agir
“Toda arte e toda investigação, assim como toda ação e todo propósito, visam algum bem.” — Aristóteles, Ética a Nicômaco
- Moral: Organizar a convivência social com normas aceitas e praticadas coletivamente;
“As pessoas em todas as partes do mundo têm esta curiosa ideia de que devem se comportar de determinada maneira, e não podem de fato se livrar dela.” — C.S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples
- Princípios: Fornecer alicerces sólidos e universais para decisões humanas justas
“Princípios são como faróis. Não são flexíveis nem negociáveis. Eles nos guiam, não importa a tempestade.” — Hyrum W. Smith
- Valores: Dar sentido à vida pessoal e orientar escolhas com base no que se considera importante.
“Valores não são verdades absolutas, mas direções que damos à nossa existência.” — Viktor Frankl, psiquiatra e autor de ‘Em Busca de Sentido”
Todos esses temas fazem parte da racionalidade humana e foram desenvolvidos em anos de filosofia e estudos, a fim de atender a necessidade humana de viver com harmonia e propósito. — Tanto no relacionamento com os outros quanto na construção interior da própria vida.
Dessa forma, para que a vida em comum seja possível e justa, é necessário estabelecer:
- o que é certo e errado,
- o que vale a pena,
- o que deve ser buscado,
- e o que precisa ser evitado.
“Mas o que tudo isso tem a ver com as Virtudes? Ou ainda, o que tudo isso tem a ver com você?”
Mais do que conceitos soltos, tudo isso que vimos até aqui prepara o terreno para conhecer, amar e viver as Virtudes! Funcionam como as fortes e grandes colunas que irão sustentar toda a construção que faremos ao longo de nossa vida. A virtude é mais uma coluna dessa estrutura e, portanto, ela sozinha não é capaz de suportar o peso de uma consciência em construção, assim como uma única coluna não é capaz de sustentar uma casa.
Gosto de pensar, e aqui é um ponto de vista particular, que cada um desses pilares é construído de forma progressiva: um de cada vez, na mesma sequência que eu os apresentei.
Primeiro, nascemos e entendemos a consciência do que é certo e errado e, em seguida, vamos aprendendo a domar nossos instintos e vontades para nos adequarmos a normas intrínsecas da sociedade que vivemos. Posteriormente, ao atingirmos um certo nível de consciência e maturidade, vamos conhecendo e escolhendo os princípios e valores que basearemos nossas decisões e construiremos nossos resultados. Todos esses pontos, principalmente os dois últimos, são fortemente influenciados pela educação que recebemos e os ambientes que frequentamos.
Enfim, chegamos ao ponto onde nossa alma deseja alcançar um nível ainda mais excelente, o bem supremo que a preenche e a satisfaz. A esse nível ainda mais excelente de conduta chamamos, Virtude. Ela é o ponto de equilíbrio perfeito entre extremos, é a busca pela felicidade e santidade, é o anseio de nosso coração em refletir as características de seu Criador.
No decorrer da história, vemos a construção do conceito de Virtudes desde a filosofia clássica a moderna, e recebendo seu sentido mais completo na Idade Média com o Cristianismo.
✨ Etimologia da Palavra "Virtude"
A palavra virtude vem do latim virtus, que tem origem em vir, que significa "homem", no sentido de força, coragem e excelência.
No latim, virtus era usada para descrever qualidades como força moral, bravura, valor e mérito — especialmente ligadas à conduta de um homem honrado.
Definição de Virtudes na Filosofia Clássica:
- Sócrates (470–399 a.C.): foi um dos primeiros a colocar a virtude no centro da vida humana. Para ele a virtude era sinônimo de sabedoria, pois ninguém faz o mal de propósito, sendo esse mal fruto da ignorância."Conhece-te a ti mesmo."
- Platão (427–347 a.C.): Para Platão, uma pessoa virtuosa é aquela cuja alma está ordenada e equilibrada. Em sua obra A República, ele fala de quatro virtudes fundamentais:
- Prudência (sabedoria) – ligada à razão.
- Coragem – ligada à parte impulsiva da alma.
- Temperança – domínio dos desejos.
- Justiça – harmonia entre todas as partes da alma.
- Aristóteles (384–322 a.C.): foi o filósofo que mais profundamente estruturou o conceito de virtude como um hábito bom adquirido pela prática consciente. Ele dizia que a virtude é o meio-termo (ou equilíbrio) entre dois extremos.
Exemplo: Coragem é o meio entre a covardia (falta) e a imprudência (excesso).
Dessa forma, só se torna virtuoso quem pratica a virtude repetidamente — como quem aprende a tocar um instrumento ou praticar um esporte.
“Nós nos tornamos justos praticando atos justos.” — Aristóteles
Na prática, isso significa que a coragem não é ausência de medo, mas a decisão de agir com prudência mesmo diante do medo — algo que vivemos, por exemplo, ao tomar decisões difíceis no trabalho ou no relacionamento.
A luz das virtudes cristãs
Mas é com o Cristianismo que a virtude ganha uma nova dimensão: ela passa a ser expressão do amor e da graça de Deus…
Na Bíblia, a palavra virtude aparece em diferentes contextos, geralmente relacionada ao caráter justo e íntegro de alguém que vive de acordo com os mandamentos de Deus. No Antigo Testamento, vemos a virtude ligada à justiça, temor do Senhor e fidelidade. Já no Novo Testamento, especialmente nas cartas de Paulo e Pedro, a virtude aparece como parte do processo de crescimento espiritual.
2 Pedro 1:5 “Por isso mesmo, empenhem-se para acrescentar à sua fé a virtude; à virtude, o conhecimento...”
Definição de Virtudes no Cristianismo:
- Agostinho de Hipona (séc. IV-V): dizia que a virtude é a ordenação do amor — ou seja, amar a Deus acima de tudo e todas as outras coisas em ordem a esse amor. Para ele, a vida virtuosa era inseparável de uma vida de oração e entrega.
- Tomás de Aquino (séc. XIII): foi quem sistematizou a teologia das virtudes com profundidade. Ele ensinava que as virtudes naturais podem ser adquiridas com esforço humano. Mas as virtudes teologais são infundidas por Deus no coração do cristão. E, apesar das diferenças, toda virtude tem por fim o bem, mas só encontra sua plenitude em Deus.“A virtude é um hábito bom, que torna o homem bom e o leva a agir bem.” — Tomás de Aquino, Suma Teológica
Mais do que equilíbrio ou autocontrole, a virtude se torna fruto do Espírito, resposta do coração à fé e caminho de santidade.
O que tudo isso tem a ver com você?
Hoje, ao olharmos para o passado, entendemos que as virtudes não são ideias distantes, elas são ferramentas para uma vida excelente. São bússolas internas que nos ajudam a ser melhores filhos, irmãos, amigos, cônjuges e pais.
São sementes plantadas no silêncio dos dias comuns – quando escolhemos falar com doçura, esperar com paciência, agir com integridade, vestir-nos com recato e elegância, amar mesmo quando dói.
Viver com virtude é o que nos aproxima do homem e mulher ao qual fomos criados para ser.
1 Pedro 1:16 “Sede santos, porque eu sou santo.”
Infelizmente, o pecado corrompeu nosso coração e racionalidade. Pensamos e agimos de maneira má, produzindo ambientes hostis e de valores distorcidos.
Gálatas 5:19-21 “Ora, as obras da carne são conhecidas e são: imoralidade sexual, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçarias, inimizades, rixas, ciúmes, iras, discórdias, divisões, facções, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas. Declaro a vocês, como antes já os preveni, que os que praticam tais coisas não herdarão o Reino de Deus.”
Nossas colunas são construídas com material danificado prejudicando a segurança que ela deveria proporcionar. Muitas vezes, tentamos sustentar nossa vida com estruturas internas frágeis — emoções feridas, crenças distorcidas, traumas mal curados. Como colunas rachadas, não conseguimos carregar o que Deus deseja nos confiar.
Mas Ele é o construtor perfeito! Está pronto para curar nosso coração, reconstruir nossa base e nos tornar fortes o suficiente para receber e sustentar a sua Glória.
Gálatas 5:22,23 “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei.”
Chegamos ao final do blog de hoje. Na próxima semana, vamos conhecer quais são as Virtudes e como elas se dividem em duas categorias: as Virtudes Cardeais e as Virtudes Teologais.
Espero que esta série já esteja trazendo mais clareza ao seu coração, despertando seus sentidos para aquilo que Deus deseja transformar em sua vida. Que ela esteja produzindo frutos — ainda que pequenos — de reflexão, entendimento e entrega.
Que a cada dia possamos buscar o Bem com mais intencionalidade, lembrando que o único Bem verdadeiro é a presença do Senhor Jesus e a transformação que Ele realiza em nós.
Te espero no próximo post!